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Jornalistas devem ser transparentes quanto às incertezas em torno de fatos sobre a pandemia

 Jornal da Manhã na Jovem Pan.  —  Foto/Reprodução Youtube.

Jornalistas devem ser transparentes quanto às incertezas em torno de fatos sobre a pandemia
Fonte: NIEMAN LAB  —  Publicado no CN - Conexão Notícia em 03.maio.2020.

Leia a tradução do artigo do Nieman, tradução de Kevin Lerner.

Num momento em que o noticiário muda de figura de uma outra para outra, o jornalismo precisa ser mais transparente com o público. 

Uma reportagem do jornal Los Angeles Times, publicada em 4 de abril, sobre os efeitos variáveis ​​do novo coronavírus continha 1 parágrafo notável:

“Uma coisa a ter em mente antes de continuarmos: é possível que as informações abaixo sejam contraditórias nas próximas semanas ou que lacunas no conhecimento hoje sejam preenchidas em breve, à medida que os cientistas avançarem nos estudos sobre o vírus.”

Confira o Painel de Monitoramento de Infecção dos ACS/ACE durante Pandemia 

O parágrafo destacou-se porque, nele, o Los Angeles Times admite que as informações publicadas estavam incompletas e sujeitas a revisão. As organizações jornalísticas, de olho em projetar autoridade e conhecimento, raramente assumem a própria falta de onisciência, tampouco reconhecem a propensão que têm a falhar.

Contudo, num período de incertezas e notícias que caducam de 1 dia para o outro, cabe o questionamento: “quais são as obrigações dos jornalistas em deixar claro que suas informações são provisórias?”.

NOTÍCIAS, FATOS E VERDADE
Ministro 1 curso sobre a história da imprensa norte-americana com o objetivo de examinar as “melhores práticas” jornalísticas. Um dos livros que uso nessa aula, The Elements of Journalism, explora a diferença entre 1 fato e a verdade.

De acordo com os autores Bill Kovach e Tom Rosenstiel, o comprometimento com a verdade é a 1ª obrigação dos jornalistas. “Ainda assim, as pessoas ficam confusas sobre o que significa a verdade”, observam. Jornalistas buscam fatos e seus leitores confiam na precisão, que são conceitos menores e mais fáceis de medir em relação à verdade.
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Para Kovach e Rosenstiel, a verdade é 1 fenômeno complicado e às vezes contraditório: ela surge à medida que os fatos se reúnem. E cada novo fato pode mudar a compreensão coletiva acerca da verdade. A verdade é como uma bola de neve que rola ladeira abaixo. Cada novo fato torna essa bola de neve maior, alterando o seu curso.

Os jornalistas, no entanto, historicamente têm feito 1 mau trabalho ao explicar devidamente ao público que as notícias do dia são incompletas e provisórias. O famoso bordão de despedida de Walter Cronkite, âncora da CBS Evening News, resume essa atitude: “É assim que é”, dizia ele ao fim de cada transmissão.

As mudanças nas conclusões que os jornalistas podem tirar dos fatos sobre o coronavírus tornam clara a fraqueza inerente a tal atitude. Especialmente num momento em que as informações mudam de figura tão rapidamente.

O consenso sobre o uso ou não de máscaras em público é 1 exemplo de parte da enredo acerca do coronavírus que mudou de uma hora para outra. Essa tensão foi observada pelo articulista do New York Times Charlie Warzel. E isso é apenas 1 dos diversos elementos que mudam conforme os fatos são atualizados diariamente, se não a cada hora.

A pandemia não é uma pauta de 1 dia, como uma coletiva de imprensa ou 1 incêndio. Trata-se, no entanto, de uma pauta contínua, composta por 1 emaranhado de eventos, declarações públicas, relatórios de investigação, resultados de pesquisas, decisões políticas e outros fatos que surgem o tempo todo.

UM VIÉS EM DIREÇÃO A EVENTOS
Coberturas de desenvolvimento prolongado –como é a pandemia atualmente– apresentam dificuldades particulares para serem transmitidas no dia a dia, por meio de artigos com os quais jornalistas e o público estão acostumados.

Com tantas pautas para serem apuradas, os jornalistas dependem de especialistas que coletam e interpretam dados, e traduzem-nos para os repórteres. Essas fontes mudam suas interpretações, mesmo que ligeiramente, transformando o desenvolvimento da pauta conforme mais informações são recebidas.

Há, ainda, os oponentes de determinadas políticas que atacam não somente a ciência, mas também os especialistas e as estatísticas. Se o público não entender os fatos subjacentes de 1 assunto, aqueles que apoiam meios de tratamentos não comprovados para a covid-19, por exemplo, podem apresentar fatos capazes de dar oxigênio a suas teses, causando ainda mais confusões e dúvidas em quem depende de informações seguras.

Tantas incertezas provam-se particularmente problemáticas em meio à atmosfera superaquecida das redes sociais, onde a novidade do dia aparenta ser mais importante do que o cenário geral.

Por esse motivo, as revistas podem servir de plataforma para quem busca matérias mais cuidadosas e distanciadas, e que forneçam 1 contexto realmente abrangente. O Atlantic, por exemplo, publicou inúmeras matérias que contextualizam bem os eventos relacionados ao novo coronavírus e explicam como os fatos funcionam em conjunto para formar o melhor entendimento da verdade disponível num determinado momento.

‘ERRAMOS’
As organizações de notícias desenvolveram sistemas para retratarem-se com o público quando estiverem comprovadamente erradas sobre algo que publicaram. Como minha pesquisa mostrou, esse sistema de emitir erratas representa 1º lugar em que as redações têm entrado com certa relutância, ao longo da história do jornalismo.

O New York Times precisou ser pressionado antes de começar, em 1972, a publicar uma seção voltada a detalhar e corrigir vícios de reportagens. O ex-senador norte-americano Daniel Patrick Moynihan apresentou a sugestão pela 1ª vez num ensaio publicado pela revista Commentary.

A (MORE) –uma publicação underground voltada a criticar o jornalismo– viu com bons olhos a sugestão de Moynihan e passou a cobrar o NYTimes aderisse à prática. O jornal, por sua vez, ignorou a sugestão até que 1 de seus editores fosse convencido a pela respeitável Columbia Journalism Review a instituir uma coluna voltada a expor os erros próprios, cometidos pelo jornal e por sua equipe.

Ainda assim, a maioria das correções publicadas pelo New York Times tem mais a ver com erros de menções –pouca atenção é voltada a explicitar erros de apuração ou equívocos factuais. Estudos recentes mostram que o foco em correção de fatos triviais ocorre na maioria das organizações de notícias.

Portanto, uma página de correções, por mais que sugira o comprometimento de uma empresa de notícias com a verdade, realmente não é adequada para lidar com pautas incertas e em constante mudança –como é o caso da cobertura sobre a covid-19.

ENGAJAMENTO COM O PÚBLICO
Não é incomum que uma organização de notícias crie 1 sistema de autocrítica, como ombudsman do New York Times, cujo trabalho é o de criticar o jornal por dentro.

Apesar dos elogios prestados a esses profissionais por pressionar as empresas em que trabalham a examinar o que publicam, o NYTimes descontinuou a editoria em 2017, substituindo-a por uma “seção de leitores”, como nova tentativa de explicar ao público como o processo de notícias funciona, e também para oferecer ao leitor uma maneira de envolver-se com o jornal.

Ao anunciar prontamente que sua reportagem estava sujeita a revisão por novos fatos, o Los Angeles Times deu 1 belo exemplo de como lidar com a incerteza. Se o resto da imprensa também reconhecesse que a verdade de hoje não é definitiva, e a audiência começasse a exigir esse tipo de transparência, então, à medida que a confiança aumenta entre jornalistas e o público, uma compreensão mútua acerca dos fatos –e da verdade– poderia emergir.
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* Kevin Lerner é professor assistente de jornalismo no Marist College. Este artigo foi publicado originalmente no site The Conversation e reproduzido sob licença da Creative Commons.
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Leia o texto original em inglês

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