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Estudo Bíblico: A mulher de Jó mandou mesmo que ele amaldiçoasse a Deus?

Patient Job (Gerard Seghers).  —  Foto/Reprodução.

Estudo Bíblico: A mulher de Jó mandou mesmo que ele amaldiçoasse a Deus?
Publicado no Conexão Notícia em 21.out.2020.  

Mundo Cristão  Uma análise bíblica e devocional sobre Jó 2:9. Por Armando Taranto Neto.*

Se existe uma figura icônica do sofrimento na Bíblia esta é Jó. É importante fazer uma distinção entre o tempo em que Jó viveu e o tempo quando o livro de Jó foi escrito.

Jó aparentemente deve ter vivido durante o tempo dos patriarcas, possivelmente próximo à época de Abraão. O livro de Jó é considerado o livro mais antigo da Bíblia.

É possível chegar a esta conclusão pelas seguintes informações:

Não se observa no livro referências alusivas à lei de Moisés, bem como suas instituições. Esta condição poderia ser considerada incomum se Jó realmente vivesse em um tempo pós Moisés.
Jó aparece apresentando sacrifícios em favor de sua família, uma atividade pertinente aos patriarcas, quando o sacerdócio ainda não havia sido estabelecido, análogo aos que eram praticados sob a égide da Lei.
A longevidade de Jó está em concordância ao tempo dos Patriarcas.
Segundo alguns estudiosos Jó deve ter vivido em uma época anterior ao pai Abraão, algo entre os séculos XXV a XXIII a.C. Ele tinha provavelmente 200 anos quando faleceu.

“Depois de todos esses eventos, Jó ainda viveu 140 anos; viu seus filhos e os descendentes deles até a quarta geração. E então morreu Jó, realizado e em idade muito avançada.” (Jó 42:16-17)

Jó foi provado em quatro aspectos:

Quando perdeu seus bens, seus empregados e seus filhos;
Quando perdeu sua saúde;
Quando orientado a “amaldiçoar a Deus” por sua esposa e
Enfrentando a acusação de seus “amigos”.
Jó é apresentado como um homem de destacado caráter espiritual. Ele é descrito assim: “Aquele que era inculpável, reto, temia a Deus e se apartava do mal.”

Jó oferecia regularmente sacrifícios por seus filhos, para o caso de algum deles ter “amaldiçoado a Deus.”

Sucedia, pois, que, decorrido o turno de dias de seus banquetes, enviava Jó, e os santificava, e se levantava de madrugada, e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles; porque dizia Jó: Porventura pecaram meus filhos, e amaldiçoaram a Deus no seu coração. Assim fazia Jó continuamente. (Jó 1:5)

A ideia de “amaldiçoaram” (blasfêmia ou desafio a Deus) é uma interpretação um tanto superlativa para o que verdadeiramente a frase quer dizer na língua original hebraica.

A significação literal do termo se traduz como a bênção que acompanhava a partida de um visitante. O sentido é visto em Josué 22:6:

“Assim Josué os abençoou, e despediu-os; e foram-se às suas tendas”.

וַֽיְבָרְכֵ֖ם יְהֹושֻׁ֑עַ וַֽיְשַׁלְּחֵ֔ם וַיֵּלְכ֖וּ אֶל־אָהֳלֵיהֶֽם׃

וַֽיְבָרְכֵ֖ם  (Waibareken = então abençoou)

A preocupação de Jó residia em que seus filhos pudessem vir a se apartar do Senhor no íntimo de seus corações, isto é, esquecerem-se de Deus e de Sua Santa presença em suas vidas diárias.

Que tipo de enfermidade assolou Jó?
Sugere-se que a doença que se abateu sobre Jó foi uma forma super severa de lepra, que também era classificada como elefantíase-dos-gregos. Algumas vezes também é denominada como lepra negra, pelo fato de tornar a cútis enegrecida.

Com a permissão de Deus, Satanás fustigou Jó com uma enfermidade impossível de identificar. Seja qual fosse a classificação dessa moléstia, os sintomas eram horríveis:

Coceira forte (Jó 2:8)
Insônia (Jó 3:13)
Feridas e crostas supurantes (Jó 2:7)
Pesadelos (Jó 7:13, 14)
Mau hálito (Jó 19:17)
Perda de peso (Jó 19:20)
Calafrios e febre (Jó 21:6)
Diarreia (Jó 30:27)
Pele enegrecida (Jó 30:30).
A “cinza” mencionada em 2:8 é uma alusão ao lugar do lado de fora da cidade onde estrume e outros detritos seriam lançados e periodicamente queimados. É bem provável que Jó tenha escolhido seu lugar ali porque sua doença tornava-o indesejável na aldeia.

“E Jó tomou um caco para se raspar com ele; e estava assentado no meio da cinza.” (Jó 2:8)

A mulher e a sua orientação a amaldiçoar a Deus

“Então sua mulher lhe disse: Ainda reténs a tua sinceridade? Amaldiçoa a Deus, e morre.” (Jó 2.9 ACF)

Uma vez mais, nos utilizando das ferramentas da hermenêutica, façamos algumas perguntas:

Foi isso que ela disse mesmo?
Como está escrita essa frase no texto hebraico bíblico original?
Qual a intenção por trás dessa afirmação?
Vamos ao texto em hebraico e transliterado:

A expressão:

וַתֹּ֤אמֶר לֹו֙ אִשְׁתֹּ֔ו עֹדְךָ֖ מַחֲזִ֣יק בְּתֻמָּתֶ֑ךָ בָּרֵ֥ךְ אֱלֹהִ֖ים וָמֻֽת

“Então, sua mulher lhe disse: ainda reténs a tua sinceridade? ABENÇOA a Deus e morre.”  (Jó 2.9) (Ela manda seu marido abençoar e não amaldiçoar).

Segundo o Dicionário Strong a palavra בָּרֵ֥ךְ pode significar:

Saúde, cumprimento, com uma invocação de bênção (mais forte que שׁלום): בך יברך ישׂראל contigo Israel abençoará (Gênesis 48:20) (E).
Em partida Gênesis 24:60 (J) Gênesis 47:10 (P) 1 Reis 8:66. c. pelos mensageiros 1 Samuel 25:14; 2 Samuel 8:10; 1 Crônicas 18:10.
Em gratidão Jó 31:20; Provérbios 30:11; Neemias 11:
E saudação matinal Provérbios 27:14.
Parabéns pela prosperidade Gênesis 12: 3 (J) Gênesis 27:29; Números 24: 9 (E) 1 Reis 1:47; Salmo 49:19; Salmo 62: 5. g.
Em homenagem a 2 Samuel 14:22; Salmo 72:15. h.
Com simpatia 2 Samuel 21: 3.
Abençoe, com o significado antitético maldição (Thes) da saudação em partir, dizendo adeus a, despedir-se; mas sim uma bênção exagerada.

A expressão: בָּרֵ֥ךְ (barekh) significa abençoa e não amaldiçoa. E por que nas mais variadas traduções os termos estão trocados?

Observemos algumas suposições:

Na cultura da época era improvável que o menor amaldiçoasse ou induzisse o maior a blasfemar. A mulher de Jó, não ousaria induzir seu marido a uma atitude tão vil, a saber que na cultura da época o homem era superior à mulher.

Outro detalhe interessante é que a ironia era uma linguagem normal. A esposa de Jó poderia ter dito “abençoa”, outrossim com tom irônico. (Técnica antitética = que constitui ou encerra antítese; antagônico, contrário.)

Outra possível sugestão diz que os escribas judeus, ao fazerem a cópia do livro de Jó (pois não se tem mais o original), podem ter trocado o termo “amaldiçoa” por “abençoa” visto que, pela reverência que tinham a Adonay, não poderiam transcrever o real sentimento da mulher de Jó falando contra o Eterno. Aplicamos aqui o eufemismo, ou seja, substituição de um termo rude por um mais brando.

Pelo contexto, apesar da palavra usada ser “abençoa (bendiga, exalta)”, o sentimento era de induzir Jó a falar contra o Eterno Deus. Era como se ela dissesse:

“Pra mim, basta! Não tenho mais razão para viver. Perdemos tudo, inclusive nossos filhos. Agora é com você. Deus não foi justo conosco! Diga adeus, bendiga a Deus e morra!”.

O que se depreende do texto é que a esposa de Jó não gozava dos mesmos adjetivos espirituais que o marido. Não se deve ser muito insensível com esta mulher, uma vez que estava psicologicamente abalada por uma sequência de traumas que se abateu sobre sua família.

Deve-se racionalizar que o conselho da esposa de Jó seja uma conclusão que chegara associando o sofrimento do esposo como causa de pecado, como seus amigos também o acusaram. Ela entende que o grande sofrimento de Jó só pode ter sido causado por um grande pecado que o separou de Deus.

Sendo assim “Amaldiçoar a Deus” não tornaria sua vida relacional com o Eterno pior, mas ao contrário, traria um grande alívio para o tormento e sofrimento temporal.

Mas o final da história de Jó é uma demonstração de que a confiança no Senhor é a certeza de mudanças e transformações. Jó revela que antes dos episódios de dor de sua vida seu conhecimento de Deus era terceirizado, entretanto, agora, ele podia contemplar a Glória do Pai com seus próprios olhos.

“Com o ouvir dos meus ouvidos ouvi, mas agora te vêem os meus olhos.” (Jó 42:5)

O dia da revelação de Deus será quando o diagnóstico médico for contrário a todas as expectativas.

O dia da manifestação de Deus em nossa vida será aquele em que todo mundo virar as costas para nós, inclusive a esposa ou o marido.


O dia que será o divisor de águas em nossa vida espiritual será, não no dia da festa e celebração, mas no dia do luto.

O dia que nossos olhos se abrirão para Deus será quando todos disserem estar certos e nós errados
Será naquele dia quando nosso ministério for desacreditado.

Vai ser no dia em que nos derem o cálice amargo de fel e termos que sorvê-lo até a última gota.

Mas alegremo-nos!

“Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra.” (Jó 19:25)

*Armando Taranto NetoGraduado em Teologia. Pós-graduado em Teologia Bíblica. Mestre em Sociologia da Religião. Doutorando em Teologia.

Gospel Prime.

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